Durante décadas, o Partido dos Trabalhadores construiu sua identidade política em torno da defesa da classe trabalhadora, dos sindicatos e das populações mais pobres. Lula se tornou o principal símbolo dessa relação, se apresentando como alguém que conhecia, por experiência própria, as dificuldades de quem precisa lutar diariamente para colocar comida na mesa. Mas essa conexão histórica parece estar perdendo força. E uma das razões pode estar justamente na incapacidade do PT de compreender as prioridades de uma parcela significativa daqueles que sempre foram sua principal base eleitoral.
Pelo menos nos últimos dez anos, o partido tem dado cada vez mais espaço a pautas identitárias e debates comportamentais, como direitos das pessoas trans, linguagem neutra e outras bandeiras ligadas ao universo progressista. São temas que encontram ressonância em determinados círculos intelectuais, especialmente entre jovens universitários e setores da militância de esquerda. O problema não está em discutir direitos ou combater discriminações, mas está em transformar essas pautas no centro de um projeto político que historicamente prometeu falar em nome dos mais pobres.
Minha gente, falo por experiência própria. Como diriam os “esquerdinhas”: tenho lugar de fala. Nasci na comunidade do Nordeste de Amaralina, periferia de Salvador, e vi isso de perto. Existe uma diferença enorme entre o debate que mobiliza parte da elite universitária e a realidade de quem vive na favela. Enquanto os ‘playboys’ e as ‘patricinhas’ de esquerda e seus parlamentares discutem palavras complicadas e filosóficas para contemplar novas identitárias, o trabalhador está preocupado com questões muito mais imediatas: o preço do gás de cozinha, o valor da conta de luz, a feira do mês e a possibilidade de colocar feijão na panela sem comprometer o dinheiro necessário para pagar outras despesas. Esse é o dia a dia da periferia.
Meus amigos, se vocês caminharem agora na periferia, visitar o comércio local, bater de porta em porta e conversar com os moradores, o assunto pode ser tudo, menos essas baboseiras de “todas, todos e TODES”. Se você insistir nisso, logo aparece alguém gritando: “pare de viadagem”!
O trabalhador que acorda cedo, enfrenta o transporte público lotado e passa o dia inteiro tentando garantir o sustento da família não perde seu tempo com assuntos irrelevantes para sua vida. Ele não mede o desempenho de um governo pela quantidade de discursos sobre representatividade. O critério de avaliação é o preço dos alimentos, a capacidade de pagar as contas e pela possibilidade de oferecer uma vida melhor aos filhos. É nesse terreno da economia real, meus amigos, que a política social precisa apresentar resultados concretos.
Mas Rogério, e onde entra o PT que você pontuou no início?
Calma! Eu prolonguei esse papo para mostrar que é justamente nesse contexto que o PT vem perdendo sua conexão com a população que sempre disse representar.
Quando o cidadão começa a questionar o custo de vida e a cobrar respostas do governo Lula, muitas vezes recebe como resposta uma espécie de cobrança de gratidão. Lançam sobre seu rosto os programas sociais e as conquistas dos primeiros mandatos do petista, como se os resultados do passado fossem suficientes para justificar as dificuldades do presente.
Mas o eleitor não vive de retrospectiva. Ele quer saber do dinheiro que tem, ou que lhe falta no fim do mês. O terceiro mandato de Lula precisa ser avaliado pelo que entrega agora. A memória das políticas públicas do passado pode ter valor para narrativa política, mas não paga automaticamente a conta do supermercado de hoje.
A decadência do Partido dos Trabalhadores se explica no abismo entre a propaganda governamental e a experiência do dia-a-dia do brasileiro. É nesse contexto que cresce a insatisfação.
E é também nesse contexto que precisamos compreender a expressão “pobre de direita”. Quem inventou essa classificação? Em grande medida, ela ganhou força em ambientes de debate político e intelectual nos quais a adesão de um cidadão pobre à direita é tratada como uma espécie de contradição, como se a condição econômica de alguém determinasse obrigatoriamente sua posição ideológica.
Essa visão revela um preconceito disfarçado de análise política. Pressupõe que o pobre não tem autonomia para escolher seus representantes, avaliar governos ou formular suas próprias convicções. Se vota na esquerda, estaria consciente de seus interesses? Se escolhe a direita, precisaria ser explicado, corrigido ou até mesmo ridicularizado? O povo está ofendido e por isso o PT está sendo abandonado por aqueles que um dia o apoiaram.
Não se trata de afirmar que todo pobre está migrando para a direita ou que toda pessoa rica vota na esquerda. A realidade eleitoral é mais complexa. Mas há sinais de que as antigas fronteiras políticas já não funcionam como antes, e ignorar essa mudança pode custar caro ao PT.