Qual é a sua responsabilidade pela violência na Bahia? (Cópia)

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O eleitor não administra a polícia nem comete o crime. Mas escolhe quem controla o orçamento, define prioridades e conduz a política de segurança pública.

Quando uma pessoa é assassinada, quando uma família perde alguém ou quando uma comunidade passa a viver sob o medo, a responsabilidade direta pertence a quem praticou o crime. Isso precisa estar claro desde o início.

Entretanto, quando a violência se transforma em um problema persistente, espalha-se por diferentes regiões e atravessa sucessivos governos, a discussão deixa de ser apenas criminal. Ela passa a ser também política, administrativa e social.

É nesse momento que surge uma pergunta desconfortável:

Qual é a sua responsabilidade pela violência na Bahia?

A pergunta não pretende colocar sobre o cidadão a culpa pelos crimes cometidos nas ruas. O eleitor não organiza facções criminosas, não administra presídios, não investiga homicídios e não determina como as forças policiais serão distribuídas.

Mas é o eleitor quem participa da escolha das autoridades responsáveis por todas essas decisões.

E toda escolha política produz consequências.

A Bahia não pode normalizar seus números

Os dados mais recentes exigem seriedade. Segundo o Atlas da Violência 2026, que analisou informações referentes a 2024, a Bahia concentrava 10 dos 20 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes e maiores taxas estimadas de homicídio. Entre eles estavam Jequié, Juazeiro, Feira de Santana, Porto Seguro, Simões Filho, Camaçari, Teixeira de Freitas, Lauro de Freitas, Ilhéus e Salvador.

O mesmo levantamento estimou para Jequié uma taxa de 79,4 homicídios por 100 mil habitantes. Juazeiro apareceu com 71,1; Feira de Santana, com 67; Porto Seguro, com 64,6; e Salvador, com 52,7. Esses números não significam que toda a Bahia tenha a mesma realidade, mas revelam uma concentração grave da violência em importantes municípios do estado.

A situação da juventude também é especialmente preocupante. O Atlas da Violência 2025, com dados de 2023, apontou que a Bahia teve uma taxa de 113,7 homicídios por 100 mil jovens, a segunda maior do país naquele levantamento. O índice nacional foi de 45,1.

Entre as mulheres, a Bahia apresentou a maior taxa de homicídios da região Nordeste em 2023: 5,9 mortes por 100 mil mulheres, conforme o mesmo estudo.

Esses dados não podem ser tratados como estatísticas distantes. Cada número representa uma vida interrompida, uma família afetada e uma comunidade marcada pela insegurança.

A redução recente precisa ser reconhecida

Criticar com responsabilidade também significa reconhecer os dados positivos.

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, o estado registrou 4.440 ocorrências de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte em 2024, contra 4.863 em 2023. Isso correspondeu a uma redução de 8,7%. A SSP também informou quedas na capital, na Região Metropolitana de Salvador e no interior.

Nos quatro primeiros meses de 2025, o governo estadual anunciou outra redução, dessa vez de 10% nas mortes violentas em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Essas quedas devem ser reconhecidas. Seria desonesto afirmar que os números estão crescendo continuamente quando os próprios registros mostram uma redução recente.

Mas também seria irresponsável usar a redução como desculpa para minimizar o problema.

Quando um estado permanece com tantas cidades entre as mais violentas do Brasil, diminuir em relação a um ano anterior não significa que a situação esteja resolvida. Significa apenas que houve melhora dentro de um cenário que continua grave.

Reduzir a violência é obrigação. Comemorar resultados positivos é legítimo. Transformar uma pequena melhora em propaganda de problema solucionado não é.

A responsabilidade é de todos, mas não é igual para todos

A Constituição Federal estabelece que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos.

Essa frase, porém, não pode ser interpretada como se o cidadão comum tivesse a mesma responsabilidade de um governador, de um secretário de Segurança Pública, de um comandante policial ou de qualquer autoridade encarregada de administrar recursos públicos.

As responsabilidades são diferentes.

O criminoso possui responsabilidade pelo crime que pratica.

O governo possui responsabilidade institucional pelas políticas de prevenção, investigação, repressão e controle.

O cidadão possui responsabilidade democrática pelas escolhas que faz e pela cobrança que deixa de fazer.

Portanto, dizer que o eleitor tem responsabilidade não significa afirmar que ele é culpado por um assassinato. Significa reconhecer que, numa democracia, o poder político não surge sozinho. Ele é concedido pelo voto e mantido pela aprovação, pela omissão ou pela falta de fiscalização da sociedade.

O voto não é um ato sem consequências

Muitas pessoas escolhem candidatos por tradição familiar, identificação ideológica, simpatia, propaganda, benefícios recebidos, alianças locais ou rejeição ao adversário.

Poucas, entretanto, analisam com profundidade os resultados concretos da gestão.

Quantos homicídios foram esclarecidos? Quantos criminosos reincidentes continuam circulando? Como está o controle das facções dentro e fora dos presídios? Houve investimento em inteligência? A polícia possui estrutura suficiente? Existem metas públicas? Os resultados são avaliados por região? O orçamento cresceu, mas a eficiência também cresceu?

Essas deveriam ser perguntas eleitorais.

O voto não pode ser tratado como uma declaração de amor a um partido. Governo não é time de futebol. Político não deve receber fidelidade incondicional.

Quem transforma a política em torcida passa a justificar tudo o que seu grupo faz e condenar tudo o que o adversário faz. Nesse ambiente, os resultados deixam de importar. A narrativa passa a valer mais do que a realidade.

E quando a população deixa de exigir resultados, o governante aprende que pode sobreviver apenas com propaganda, discursos e comparações convenientes.

Depois de tantos anos, ainda é possível falar em falta de tempo?

O Partido dos Trabalhadores venceu todas as eleições para o Governo da Bahia realizadas entre 2006 e 2022. O atual governador, Jerônimo Rodrigues, também pertence ao partido.

Isso significa que o mesmo campo político conduz o Executivo estadual desde 2007.

Depois de um período tão longo, não é razoável apresentar todos os problemas como se fossem heranças inesperadas, crises passageiras ou situações pelas quais ninguém pode ser responsabilizado.

Um governo que permanece no poder por tantos anos possui tempo para diagnosticar, planejar, corrigir, investir, trocar equipes, modernizar instituições e apresentar resultados consistentes.

Isso não significa que a violência tenha sido inventada por um partido ou que possa ser resolvida por uma única autoridade. O crime organizado atravessa fronteiras estaduais, movimenta grandes quantidades de dinheiro e exige cooperação entre municípios, estados e União. A própria legislação brasileira define a segurança pública como uma responsabilidade que envolve todas essas esferas.

Entretanto, reconhecer a complexidade do problema não pode servir para dissolver responsabilidades.

Se todos são responsáveis por alguma coisa, isso não significa que ninguém responda por nada.

Qual é, então, a responsabilidade do eleitor?

A primeira responsabilidade é não ignorar os resultados.

Não basta gostar do discurso de um candidato. É necessário verificar o que ele entregou.

A segunda é não defender político como se estivesse defendendo um familiar.

Governantes são funcionários temporários da população. Devem ser avaliados, cobrados e, quando não apresentam os resultados esperados, substituídos democraticamente.

A terceira é não vender o voto por vantagens imediatas.

Um benefício momentâneo pode custar anos de serviços públicos deficientes. A escolha feita em poucos segundos permanece produzindo efeitos durante todo o mandato.

A quarta é acompanhar também deputados, prefeitos, vereadores, senadores e o Governo Federal.

O governador possui papel central na segurança estadual, especialmente porque as polícias Civil e Militar estão ligadas ao estado. Mas o enfrentamento da criminalidade também depende de leis, orçamento, sistema penitenciário, investigação financeira, políticas municipais e integração federal.

A quinta responsabilidade é recusar a normalização.

Não é normal que bairros sejam controlados pelo medo. Não é normal que famílias mudem suas rotinas por causa da criminalidade. Não é normal que jovens cresçam acreditando que a violência faz parte inevitável da vida na Bahia.

Quando a sociedade se acostuma, o poder público se acomoda.

Cobrar segurança não significa defender abusos

Existe ainda uma falsa escolha frequentemente apresentada ao cidadão: ou ele aceita a insegurança, ou apoia qualquer ação estatal, mesmo quando ilegal ou abusiva.

Essa oposição é equivocada.

Uma política de segurança eficiente precisa proteger o cidadão, valorizar os bons policiais, investigar crimes, desarticular organizações criminosas, controlar os presídios, enfraquecer financeiramente as facções e respeitar a lei.

Inteligência, investigação e integração institucional são tão importantes quanto o policiamento visível. As próprias iniciativas divulgadas recentemente pelo Governo da Bahia destacam o uso de inteligência, tecnologia, integração e bloqueio de recursos financeiros do crime organizado.

O que a população deve exigir não é violência estatal descontrolada. É autoridade legítima, planejamento, eficiência e resultados mensuráveis.

A urna não comete crimes, mas mantém governos

A violência possui muitas causas: crime organizado, tráfico de drogas e armas, desigualdade, desestruturação familiar, evasão escolar, impunidade, falhas no sistema penitenciário e ausência do poder público em determinados territórios.

Nenhum eleitor, isoladamente, controla todos esses fatores.

Por isso, seria injusto afirmar que uma pessoa é culpada pela violência apenas porque votou em determinado candidato.

Mas também seria ingênuo dizer que as escolhas eleitorais não possuem relação alguma com as políticas públicas adotadas.

O eleitor não pode controlar diretamente a ação dos criminosos. Pode, entretanto, decidir quem terá autoridade para enfrentá-los.

Pode analisar se as promessas foram cumpridas.

Pode exigir transparência.

Pode pressionar seus representantes.

Pode deixar de premiar a incompetência com mais um mandato.

Pode abandonar a fidelidade cega e colocar a vida da população acima dos interesses de qualquer partido.

A pergunta permanece

Qual é a sua responsabilidade pela violência na Bahia?

Talvez ela esteja no voto dado sem analisar resultados.

Talvez esteja na defesa automática de um governo apenas porque ele representa o seu grupo político.

Talvez esteja no silêncio diante de números inaceitáveis.

Talvez esteja na decisão de reclamar da insegurança durante quatro anos e, na eleição seguinte, escolher novamente pelos mesmos critérios que ajudaram a manter o problema.

Você não é responsável pelo crime cometido por outra pessoa.

Mas é responsável pela maneira como utiliza o poder que a democracia colocou em suas mãos.

O voto não dispara uma arma, mas escolhe quem terá a obrigação de impedir que a violência continue vencendo.

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